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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Para ser um bom treinador, basta gostar de animais? Por Ivan Chitolina



Pode-se dizer que todo treinamento de animais se dá através de atitudes e metodologias provindas do comportamentalismo e etologia (estudo do comportamento animal). De alguma forma, é o homem utilizando de forma inteligente os impulsos inatos de um animal, a fim de obter o controle do mesmo na execução de uma função que satisfaça a sua necessidade.

Um treinador de cães deverá, em sua formação, dominar os conceitos e técnicas do comportamentalismo e do comportamento canino, habilitando-se na sua capacidade de analisar constantemente sobre o quanto a sua própria necessidade de controle está inserida na relação com o animal.
Por isso, este artigo não trata do elenco de características desejáveis que um adestrador de cães deveria apresentar como princípios máximos a serem seguidos, mas sim trata da consciência que todo treinador deve ter sobre seus próprios sentimentos primitivos.
Gostar de animais ou até mesmo se declarar um defensor deles não significa aptidão e competência para lidar com eles ou treiná-los. Há vários casos de maus-tratos cometidos por pessoas e treinadores que se dizem amantes dos animais. Essas pessoas não estão mentindo quando dizem serem amantes dos animais, apenas não desenvolveram auto-controle suficiente para lidar com os seus instintos primitivos e quando algo foge do controle elas tendem a não ter repertórios suficientes para retomar o controle de forma saudável, ou seja, sem violência e autoritarismo.
A psicanalista Selma Fraiberg em um de seus livros coloca:

“todas as qualidades que chamamos de humanas derivam da possibilidade inerente a cada criatura humana de adquirir controle sobre seu eu instintivo”.

É interessante analisarmos o conceito de liberdade sob esse ponto de vista. Até que ponto podemos nos declararmos livres sem o controle do nosso eu instintivo? Somos livres sem auto-controle?
Por essa razão, este artigo não trata das qualidades que um treinador de animais deve apresentar, mas sim um artigo que traz à tona uma característica intrínseca que todo treinador de animais deve apresentar: a sua necessidade de controlar um outro animal. Refletir sobre o motivo que o levou a escolher esta atividade profissional não pode se resumir em gostar de animais. Essa necessidade de controle pode determinar o quanto de pressão e ansiedade estão sendo postas em um treinamento, além de outros fatores que podem vir a prejudicar o seu trabalho principalmente se a necessidade de controle de um animal satisfaz o próprio ego ou obsessão do treinador. Imaginem essa falta de consciência de si próprio no trato com um animal dentro de instituições hierarquizadas onde geralmente é o ego daquele que ocupa o topo da hierarquia que define o direcionamento do treino e não o autocontrole e conhecimento das técnicas e teorias tão necessárias em qualquer treinamento de animais.
Por isso, é importante que todo adestrador busque essa consciência sobre si e sobre a sua escolha, uma vez que o sabor do controle de um animal é algo que lhe traz uma sensação de poder. Isso não é difícil de compreender, pois estabelecer um elo de comunicação com qualquer outra espécie que não seja a humana, sem antropomorfizar (humanizar) o animal, é um sentimento poderoso. Todo dono de cachorro deseja o controle do seu animal.
Deixo para os treinadores refletirem que antes de controlar os instintos primitivos de um animal, eles devem saber controlar os seus próprios instintos. Não é um caminho fácil e a busca é constante, mas esse é o maior desafio que coloco a qualquer treinador.

Um grande abraço a todos.


Ivan Chitolina

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