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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Reflexões sobre o uso dos termos: Psicologia Canina e Psicólogo Canino Por Ivan Chitolina - Revisão - José Luís Vettorazzo Biazini

No dia-a-dia ouvimos , com freqüência,  o termo psicologia ser utilizado. Essa utilização possui diversos sentidos, por exemplo, quando nos deparamos com um bom vendedor ou quando ligamos para um amigo que sempre nos ouve com atenção. Para um dizemos que ele usa de “psicologia” para vender seu produto e para o outro dizemos que ele é um bom ouvinte, portanto, seria um bom psicólogo. Seria essa a psicologia dos psicólogos? Não! Essa psicologia , usada no cotidiano das pessoas , tem a sua importância e é denominada de psicologia do senso comum.  A “psicologia dos psicólogos”, diferente desta primeira, é a psicologia cientifica.
Sendo a psicologia uma de suas áreas, começarei explicando o que é ciência.
A ciência compõe-se de um conjunto de conhecimentos sobre fatos ou aspectos da realidade (objeto de estudo), expresso através de uma linguagem precisa e rigorosa. Esses conhecimentos devem ser obtidos de maneira programada, sistemática e controlada, metodológica então,  para que se permita a verificação de sua validade. Assim, podemos apontar o objeto dos diversos ramos da ciência e saber exatamente como determinado conteúdo foi construído, possibilitando a reprodução das experiências e de seus resultados. O saber pode , assim, ser transmitido, verificado, utilizado e desenvolvido.
Essas características da produção científica possibilitam sua continuidade: um novo conhecimento é produzido sempre a partir de algo anteriormente desenvolvido. Nega-se, reafirma-se, descobrem-se novos aspectos, e assim a ciência avança. Nesse sentido, a ciência caracteriza-se como um processo continuo e dinâmico no qual cada etapa tem seu valor em si mesmo e não passa por valorização ou hierarquização de sua importância particular. Ou seja, não há etapa mais importante que a outra, já que uma advém, de alguma forma, dos conhecimentos obtidos pelas demais anteriores. No contexto da cinofilia, um exemplo à ser usado seria o da teoria da dominância nas relações sociais dos canídeos, teoria essa que passou por esse processo. Hoje ela serve como referência de como se pensava alguns aspectos do comportamento social desses animais e encontra-se a margem do atual conhecimento histórico cientifico. O mesmo oocorre como várias outras teorias de diversas áreas cientificas que , ao longo do tempo , também foram refutadas e descartadas como hipótese plausível.
Outro aspecto importante da ciência é que ela aspira a objetividade. Suas conclusões devem ser passíveis de verificação racional e isentas de emoção para tornarem-se válidas para todos ; a ciência deve ter um objeto claro; linguagem específica, métodos e técnicas rigorosos, processo cumulativo do conhecimento entre outras qualidades. Sendo assim, o processo de conhecimento cientifico difere em muito do conhecimento espontâneo do senso comum.
Vamos agora a Psicologia propriamente dita. “Logos” deriva do grego que significa razão; “Psico” também deriva do grego psyché que significa alma. Portanto, etimologicamente, psicologia significa “estudo da alma”. A alma ou espírito era concebida como a parte imaterial do ser humano e abarcaria o pensamento, os sentimentos de amor e ódio, a irracionalidade, o desejo, a sensação e a percepção.
Na filosofia, os filósofos pré-socráticos preocupavam-se em definir a relação do homem com o mundo através da percepção. Com Sócrates (469-399 a.C) a Psicologia ganha consistência; sua principal preocupação era com o limite que separa o homem dos animais. Desta forma, postulava que a principal característica humana era a razão, esta permitia ao homem sobrepor-se aos instintos, que seriam a base da irracionalidade. Ao definir a razão como peculiaridade do homem, Sócrates abre um caminho que seria muito explorado pela Psicologia e tais teorias são , de certa forma, frutos de uma primeira sistematização na Filosofia.
Platão (427-347 a.C), discípulo de Sócrates , procurou definir um “lugar” para a razão em nosso próprio corpo. Definiu esse lugar como sendo a cabeça. A medula, portanto seria o elemento de ligação da alma com o corpo. Para Platão, a alma era separada do corpo. Eis que surge Aristóteles (384-322 a.C), discípulo de Platão. Sua contribuição foi inovadora ao postular que alma e corpo não podem ser dissociados. Para Aristóteles, a psyché seria o princípio ativo da vida. Tudo aquilo que cresce, se reproduz e se alimenta possui sua psyché ou alma. Desta forma, os vegetais, os animais e o homem teriam alma. Os vegetais teriam a alma vegetativa, que se define pela função de alimentação e reprodução. Os animais teriam essa alma e a alma sensitiva, que tem a função de percepção e movimento. E o homem teria os dois níveis anteriores e a alma racional, que tem a função pensante. Aristóteles chegou a estudar as diferenças entre a razão, a percepção e as sensações. Esse estudo está sistematizado na obra Da anima, que pode ser considerado o primeiro tratado em Psicologia. Seria interessante aos colegas de cinofilia, a leitura desse estudo.
Estamos no ano de 2013 e as pesquisas em comportamento canino estão apenas iniciando um processo de compreensão mais profunda sobre a mente canina. No entanto, os termos psicologia canina e psicólogo canino são amplamente difundidos no mercado como verdades cientificas e como formas de atuação profissional aceitáveis. Não defendo aqui se existe uma psique canina ou não, ou se existe uma psicologia canina ou não. Discorro sobre o uso do termo sem fidedignidade de nenhuma instituição cientifica. Também coloco que , embora não seja ilegal o uso do termo, é , no mínimo anti-ético, uma vez que se apodera do saber de uma ciência (psicologia) dando legitimização falsa a um novo saber – psicologia canina. Apoderar-se de termos que não são reconhecidos por nenhum instituto de pesquisa ou entidade de classe, quando não existem cursos de graduação de psicologia canina e tampouco nenhum que seja reconhecido pelo MEC é , no mínimo , um equivoco, um auto-engano e uma pretensão nada humilde de quem os utiliza.
“Terapeutas caninos” existem, são os veterinários, eles sim são reconhecidos legalmente e eticamente pelos órgãos competentes, como aptos a realizarem terapias que auxiliem a saúde do cachorro. Portanto , essa história de não ser treinador, mas sim um terapeuta canino, cabe aos veterinários afirmarem e não a treinadores desatualizados e pretensiosos do show business. Por favor, caros colegas, assumam as suas identidades de adestradores (independente da modalidade de treino e atuação), e limpem as suas mentes de toda essa terminologia “cool”, que serve apenas para que o cliente sinta que está contratando um “psicólogo canino” e não um adestrador. Quem faz isso, presta um grande desfavor a profissão de adestrador, pois induz , o leigo , ao reforço da velha concepção que se tem do adestramento de cães, ou seja, de que “adestramento” é algo desagradável ao cão e que o trabalho do “psicólogo canino” tem um viés mais “positivo” – e aqui surge a lembrança de outro termo usado: “Adestramento Positivo”, que em outra oportunidade tratarei também -. A utilização do termo “Psicólogo Canino” também tem aspecto diminutivo ao termo adestrador, visto que um psicólogo em nossa sociedade carrega um status de profissão importante na área da saúde. Creio que o papel desses profissionais equivocados e causadores de equívocos poderia ser outro, o de re-significar a antiga concepção que se tinha do adestramento, desmistificando antigos rótulos em relação a profissão sem a necessidade do uso de termos que iludem o leigo em relação a treinamento de cães. Um psicólogo em sua atuação, deve basear-se em abordagens especificas, realizar supervisão com um psicólogo mais experiente e realizar a sua própria terapia; sem ainda considerar as especializações. Estas são condições exigidas pelo conselho de ética e pela metodologia cientifica da profissão, para que , assim , não ocorrem eventos que poderão prejudicar a relação terapêutica e para que ocorra um processo de avaliação da atuação desse profissional em cada caso atendido. Também existem procedimentos de registros específicos que devem seguir uma metodologia.
Há ainda quem afirme que existindo as matérias de Comportamento e Bem Estar Animal e Psicobiologia em faculdades e universidades de Biologia, Zootecnia e Veterinária, é prova de que a psicologia canina exista. Entender os mecanismos neuroquímicos e fisiológicos dos seres vivos e como esses mecanismos se dão no Sistema Nervoso Central e se manifestam com o meio ambiente e em comportamentos é o objeto de estudo de tais matérias. Essas matérias não definem o entendimento da psyché (alma) como seu objeto de estudo nos seres vivos. Já o “psicólogo canino” usa essa terminologia dando ênfase ao entendimento da psyché (alma) canina.
Isto posto, gostaria de convidar algum “psicólogo canino” para que apresente o objeto de estudo da sua ciência, a metodologia cientifica da sua profissão e exemplifique como funciona o registro de seus atendimentos e os órgãos que validam a profissão e fiscalizam a mesma.
Esta contraditória forma de atuação só tem eco no show-business, onde o que se vende para o telespectador é a distração sem compromisso, é o mistério, o encantamento, a pseudociência e soluções que parecem ser fáceis e rápidas de serem alcançadas (imediatismo como valor de vida). A grande massa de telespectadores é leiga, entendo esse aspecto em uma sociedade meramente consumista, no entanto, me assusta treinadores terem esse conflito de identidade. Por isso continuo afirmando, que o uso do termo é incorreto.
Vale aqui uma citação de parte do livro “Cão Senso” de Jonh Bradshaw, publicado pela editora Record, para reflexão –

Analisar a Inteligência canina não é simples. Assim como nunca poderemos saber precisamente como é o mundo interior da emoção canina, (e aqui acrescento, ele não produz cultura, partes importantes sobre o entendimento humano e a Psicologia), é provável que nunca estejamos certos de que os cães pensem do mesmo modo que nós. A ciência, até agora, tem sido incapaz de dizer-nos o quão conscientes de si mesmos os cães são, menos ainda de explicar se eles possuem qualquer coisa parecida com os nossos pensamentos conscientes. Isso não é surpreendente, já que nem os cientistas e nem os filósofos parecem concordar com o que seja a consciência humana, muito menos a dos animais. No entanto, é possível examinar, cientificamente, se os cães podem ou não fazer várias coisas e, depois, inferir os tipos de pensamentos que poderiam ter sobre isso, se tivermos em mente que, como cães, podem não ter as mesmas prioridades que nós (ou outros animais), teríamos na mesma situação”.

Não serão adestradores que utilizam essa terminologia como diferencial de marketing ou com conflitos de identidade que irão validar esse saber, mas sim , um corpo de pesquisadores com bagagem de conhecimento cientifico que irão nomear o termo adequado. Esse termo poderá vir a ser psicologia canina ou não. E se futuramente for escolhido e validado esse termo, haverá a necessidade da formatação dessa nova ciência numa grade curricular acadêmica para que , somente então, os concluintes desse curso de formação, encham o peito e digam : - “ Eu sou um psicólogo canino “. No entanto, enfatizo que , as pesquisas mais recentes em comportamento canino têm abordado temas que buscam compreender a evolução dessa espécie ; aprofundar o conhecimento sobre seus sistemas sensorial e cognitivo, tendo como referências estudos sobre neuroetologia, neurobiologia e comportamento animal. Vejo que o adestramento caminha para uma definição no que diz respeito , não a psicologia dos cães, mas sim a seus aspectos sensório-cognitivos, cabendo, a cada profissional desse mercado, o entendimento desses novos estudos e conseqüentemente modificar posturas gerais em suas atuações como profissionais. Caminhemos todos para um desenvolvimento e esclarecimento melhor no que diz respeito ao mercado pet. Desenvolver a cinotécnia, a cinofilia, a medicina veterinária e o adestramento é função de cada um de nós que atua nessa área; isto, assim sendo, não confunde o leigo e nos engrandece em nossas atividades profissionais diárias.
Um grande abraço a todos.

Ivan Chitolina – Adestrador Profissional (com muito orgulho dessa terminologia – Adestrador) e diretor do Centro de Treinamento e Hospedagem de Cães – Cão do Mato.


José Luís Vettorazzo Biazini - Adestrador Profissional, cinófilo, especialista em comportamento canino e criador. 


Bibliografia: “Psicologias” (Ana M. Bahia Bock, Odair Furtado, Maria de Lourdes T. Teixeira). Editora – Saraiva.

2 comentários:

Emmanuelle disse...

Gostei muito do texto Ivan! Parabéns!

Ivan Chitolina disse...

Que bom que gostou Emmanuelle. O tema e bem atual e creio que eu e o Jota conseguimos esclarecer qualquer dúvida a respeito do uso desses termos. Grande abraço e obrigado por ler e participar do blog.